domingo, 11 de fevereiro de 2018

Loa

  • Boa noite! 

  • Hoje estou aqui para usar minha educação e minha formação técnica em nome de sua diversão. 

  • Vou fazer você se sentir inteligente e culturalmente bem informado. E sem que para isso você precise se desfazer de seus bens e sua condição de proletário não será lembrada.

  • Prometo que você vai se sentir como um membro de uma aristocracia cultural, bem formada, seguindo todos os preceitos liberais que você em teoria é contra.

  • O vinho, a cerveja, o garçom estes são do mundo real, eu estou aqui num mundo “sensível”, comunicando ideias que em si mesmas não podem ser tratadas como uma mercadoria, o que em seu conceito desvalorizaria a  arte no seu conhecimento do trivial do fazer artístico.

  • Vou me emprenhar em ser ao máximo fiel à maneira como você tem acesso aos bens culturais e como você valora aos que insistem nesta atividade divina e com a qual, sem ela, "a vida seria um erro".

  • Sei que esta atividade em nenhum momento pode ser vinculada à uma atividade profissional, sei que isso ofende mais que uma possível ignorância sua. Sei que quanto mais eu for “maquina”serei mais aplaudido, sei que quanto mais assujeitado e mimético, mais “artista”serei.

  • Agradeço a sua bondade e o seu falar alto. A minha solidão se alimenta com a sua indiferença. E mais uma vez. 

  • Boa noite!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das Paradas

Numa coisa eu atento
viver aqui no momento,
distraído até pode ser...
Vivi um tempo a perder 
Vivendo parado no tempo.

Quando a cada momento 
esqueço até sem intento
se livros tenho de ler,
esqueço até do lazer 
Vivendo parado no tempo.

O calmo dormir que eu tento
O sono sem nenhum alento
O pouco ou nenhum prazer
Tarefas e tanto a fazer 
Vivendo parado no tempo.

O rio já passou e foi lento,
o Vento passou violento
A rua me dá desprazer,
mesmo com tanto a ver
Vivendo parado no tempo.

Reclamo da vida e tento
Fazendo deveres que invento
Cassando a vida e o viver
Sem dramas frios no ser.
Vivendo parado no tempo.

Justo é meu argumento
E quando erro lamento
Mas o que posso fazer?
Se tenho tanto a dizer
Vivendo parado no tempo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sobreverdades

Pensei que dela apenas mal-falavam
pensei que fosse injusto, tudo.
Ou quase tudo...
Mas parece ser verdade,
daquelas verdades  que se constroem
e sem muita dificuldade.

Como as verdades ditas nas janelas,
sem almofadas, aquelas rápidas...
Como um mal-dizer, quase adágio
como um mal-dizer quase verdade
daquelas verdades que destroem,
sem muita realidade.

Mas o fato é que a verdade, 
ao menos sobre ela, parece verdade.
O homem de fé foi diminuído, 
ao simples, ao selvagem…
Desejo que não deseja, 
desejo de quem finge não desejar.

O amor voraz como o ódio.
Como a falta de realidade crível
como um desejo destruidor.
A luz trouxe o desejo amor/ódio.
E o desejo trouxe o fim.



sobre Salomé de Orcar Wilde

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Mais Bordões

justiça cega
justeza justa
se isso pega?
não te assusta.

momento sério
movimento lerdo
atalho cego
eco sem saída

justiça cega
justeza justa
se isso pega?
não te assusta

mão dada
mente Dada
Feitor fada
formula mágica

justiça cega
justeza justa
se isso pega?
não te assusta

estéreo, febril
como em coma
segue seguindo
puta que o pariu

sábado, 6 de janeiro de 2018

Trocadálhos

Ascende a vela
usa-a como luz
infiltra-te entre festas
ou pequenas frestas.

Encolhe teus desejos
de infames trocadilhos
entre rios sem fim
ilude, alude, insiste…

Espera sem pressa
és espessa, expressa
acolhe a duvida
acalanta-a, dá-lhe forma.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Celular



quase tudo
      quase todo
            quase quase 
                  todo tudo
                       tudo todo

                    todo todo
               todo quase
          quase todo
tudo quase

domingo, 26 de novembro de 2017

Inarmonia

Quando escolhemos
 a cor e o nome das coisas
estamos sujeitos ao engano 
e nem sempre há harmonia.

Quando escolhemos
o como e o aonde
estamos sujeitos ao engano
e é difícil definir caminhos.

Quando não escolhemos,
pouco temos em quê errar
só há a surpresa
e estamos abertos.

Quando não temos opção
não temos o direito de escolher
nem de não escolher
estamos perdidos.